Bancos de investimento apostam em 2026 para recuperação e IPOs

Bancos de investimento apostam em 2026 para recuperação e IPOs

A indústria de bancos de investimento brasileira encerra 2025 em tom de esperança renovada. Após um ano desafiador que registrou queda de 4% na receita consolidada com comissões, chegando a US$ 710 milhões, o mercado de capitais sinaliza sinais claros de recuperação para os próximos meses.

As operações que não decolaram em 2025 começam a encontrar o caminho certo, e os executivos das principais instituições financeiras já falam em "um movimento bem diferente" para 2026.neofeed

A maior expectativa concentra-se no fim da seca histórica de ofertas públicas iniciais. Desde dezembro de 2021, quando o Nubank abriu seu capital, nenhuma empresa brasileira realizou um IPO. Quatro anos sem essas operações deixaram marcas na indústria, alimentando especulações que se repetiram anualmente sem materialização.

Desta vez, porém, os sinais parecem mais concretos. A BRK Ambiental, empresa de saneamento ligada à canadense Brookfield, protocolou em dezembro um pedido junto à Comissão de Valores Mobiliários para realizar oferta pública primária de ações. O PicPay também sinalizou movimento em direção aos mercados americanos, com operação que pode captar até US$ 500 milhões.neofeed

Antonio Coutinho, chefe de banco de investimento do Citi Brasil, não hesita em suas previsões: "Estamos muito perto da reabertura da janela, tanto em Nova York quanto no Brasil. E isso deve acontecer no primeiro trimestre de 2026." A confiança reflete-se também em outras instituições.

Anderson Brito, head do investment banking do UBS BB, observa que "o que estamos vendo para 2026 é uma melhora do mercado, com equities mostrando um respiro". Leonardo Cabral, responsável pela área de banco de investimento do Santander, descreve a mudança de cenário: "Estamos vendo um movimento bem diferente para o ano de 2026, com ofertas para serem anunciadas, talvez em janeiro, no máximo fevereiro com ofertas na rua".neofeed

Essa retomada, contudo, será controlada. Os banqueiros advertem que 2026 não será um "grande ano" para o mercado de capitais, mas sim um período de transição e recuperação gradual. A redução da taxa Selic permanece central nas projeções, embora o otimismo não ignore realidades macroeconômicas complexas.

O mercado projeta uma taxa Selic de aproximadamente 12% ao final de 2026, mantendo-se em patamar ainda elevado que restringe a atividade econômica. Mesmo com perspectivas de cortes a partir de janeiro ou março, a queda não será drástica—a taxa que hoje opera em 15% ao ano não caíra para níveis historicamente baixos tão cedo.broadcast

As condições externas também contribuem para o otimismo. O fluxo de investidores estrangeiros para o Brasil acelerou significativamente. Até outubro de 2025, os investimentos estrangeiros diretos no país já haviam superado o volume de todo o ano anterior, chegando a US$ 74,3 bilhões. Segundo dados mais recentes, esse montante pode atingir em torno de US$ 80 bilhões em 2025, refletindo o quinto recorde em três décadas.

Esses investidores, diferentemente dos padrões de anos passados, apresentam perfis mais orientados ao longo prazo. Fabio Nazari, sócio e head de mercado de capitais do BTG Pactual, identifica a mudança: "Aqueles que entram hoje são long-only investors, não hedge funds; têm uma visão de longo prazo. Eles não conseguem comprar ativos na China, Rússia e Turquia como antes, enquanto na Índia já compraram bastante. Por eliminação, vêm para o Brasil ou México".globo

Essa reconfiguração do investimento estrangeiro traz implicações profundas. Primeiro, oferece suporte à recuperação do mercado de renda variável após anos de aridez. A Bolsa encerrou 2025 com ganho acumulado de 34%, seu melhor desempenho desde 2016, com o Ibovespa fechando em 161.125 pontos. Segundo, cria oportunidades para que empresas com necessidade de capital voltassem a olhar para o mercado de ações.

Fundos locais, que mantiveram recursos em renda fixa durante a escalada de juros, começam a considerar realocar para a renda variável. O B3 projeta que o volume diário médio negociado, atualmente de R$ 24,6 bilhões, tem potencial de aumentar significativamente em 2026, podendo alcançar "R$ 50, R$ 60, R$ 70 bilhões".borainvestir.b3

As operações de fusões e aquisições também apresentam sinais de aceleração. Embora em 2025 o volume do top 10 de bancos tenha recuado 2% para US$ 76,7 bilhões, o BTG Pactual liderou a categoria com crescimento de 16%, atingindo US$ 17,8 bilhões em transações. Alessandro Farkuh, sócio e head de M&As do BTG, observa que "a dinâmica de fechamento muda porque os benchmarks de valuation se distorcem.

O processo de execução se alonga, requerendo uma abordagem mais criativa e estruturada". Com a perspectiva de melhora nas condições macroeconômicas e recuperação dos múltiplos de mercado, as transações que foram adiadas em 2024 e 2025 podem finalmente prosperar.neofeed

A renda fixa, setor que amorteceu a queda de receitas nos últimos anos, deve ceder espaço. As operações de emissões de dívida corporativa contraíram 9,7% em 2025, para US$ 85,4 bilhões. Embora o mercado local de dívida tenha crescido substancialmente—de aproximadamente R$ 300 bilhões em emissões em 2021 para R$ 600 bilhões em 2024—a transição para equities refletirá mudanças estruturais nas preferências dos investidores e nas necessidades das empresas.

Miguel Diaz, head de emissões externas do Santander, oferece perspectiva realista: "A queda da taxa de juros ainda é expectativa e não será de 15% para 9%. No esquema geral de retornos, a renda fixa continua muito atrativa".neofeed

Os bancos de investimento também se preparam para a inovação tecnológica como pilar de diferenciação competitiva em 2026. A B3 planeja lançar uma tokenizadora para ativos tradicionais, iniciando com o mercado de ações, além de uma stablecoin própria que funcionará como ferramenta facilitadora de negociação em tokens. O objetivo é criar uma plataforma que permita que fintechs e outras instituições desenvolvam soluções inovadoras sobre infraestrutura de negociação existente.

Simultaneamente, a aceleração da agenda de lançamento de novos produtos financeiros prossegue: em 2025 foram 19 lançamentos em derivativos, com previsão de 22 novos produtos para o biênio 2026-2027, incluindo opções semanais de Bitcoin em dólar, contratos futuros de petróleo e opcionalidades sobre decisões de bancos centrais estrangeiros.

A performance desigual dos bancos em 2025 oferece lições sobre estratégias diferenciadas. O Itaú BBA liderou em receitas consolidadas e em operações de renda fixa, conseguindo capitalizar em operações como block trades da Vivo de R$ 1 bilhão e ofertas públicas de aquisição. O BTG Pactual e Itaú BBA mantiveram posições de força no ranking geral, enquanto o JP Morgan liderou em operações de capital próprio.

Essa diversidade de desempenho reflete as escolhas estratégicas de cada instituição em um mercado desafiador: alguns apostaram em fortalecer relacionamentos com clientes durante a seca de operações, outros focaram em produtos inovativos, e outros ainda aproveitaram nichos de mercado menos explorados.neofeed

A perspectiva para 2026 também incorpora realidades políticas inescapáveis. O ano constitui calendário eleitoral no Brasil, e embora banqueiros não reconheçam risco político imediato e significativo para suas operações, a volatilidade decorrente de incertezas políticas pode impactar o timing e a execução de transações.

Coutinho, do Citi, acredita que a eleição presidencial de 2026 "provavelmente não alterará essa perspectiva" de recuperação, uma posição compartilhada por outros executivos, mas que reconhece implicitamente que o cenário político permanece como variável a monitorar.

O mercado de capital brasileiro, historicamente volátil e sujeito a ciclos abruptos, entra em 2026 com fundamentos mais sólidos do que em anos recentes. A confluência de queda esperada de juros, aumento de fluxos estrangeiros, recuperação do apetite por renda variável e melhor precificação de ativos na Bolsa cria ambiente fértil para retomada de operações que permaneceram em suspenso.

Os bancos de investimento já reposicionaram suas equipes, reforçaram relacionamentos com clientes potenciais e prepararam pipelines de operações. Resta saber se o otimismo refletirá a realidade ou se 2026 encontrará novos obstáculos. Por enquanto, após anos de espera, a indústria volta seus olhos para frente com esperança fundamentada.

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Pedro Costa

Pedro Costa é o editor e analista de mercados, dedicado a rastrear a Economia Global e as Notícias de Negócios & Destaques diários. Com extensa experiência em análise macro, ele foca em fusões, políticas econômicas e Curiosidades Empresariais históricas.