Caso Master: BRB abriu mão de ressarcimento instantâneo de R$6,7 bi

Caso Master: BRB abriu mão de ressarcimento instantâneo de R$6,7 bi

A Polícia Federal identificou que o Banco de Brasília renunciou à possibilidade de recuperar imediatamente R$ 6,7 bilhões ao optar por receber o valor parcelado em sete parcelas mensais, apesar de dispor de cláusula contratual que permitia o ressarcimento instantâneo.

A revelação consta da representação que deu origem à Operação Compliance Zero e sugere que a instituição pública teria atuado deliberadamente para manter a liquidez do Banco Master até a conclusão da tentativa de compra da instituição privada.

Segundo os delegados responsáveis pela investigação, a decisão do BRB de parcelar o recebimento de R$ 6,7 bilhões entre junho e dezembro de 2025 — mesmo consciente de que poderia acionar cláusula resolutiva para recuperação imediata — evidencia o objetivo de "dar sobrevida ao Banco Master".

Para os investigadores, o dinheiro permaneceu vinculado à conta do Master de forma "totalmente alheia às previsões contratuais", inferindo-se claramente a intenção de que os recursos permanecessem com a instituição.

Operação revela esquema bilionário

A Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025 após o Banco Central identificar a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado fraudulentas ou inexistentes do Master ao BRB.

As investigações apontam que o esquema envolvia a empresa Tirreno, criada em novembro de 2024, que teria vendido carteiras de crédito ao Master sem receber pagamento, e este, por sua vez, repassou os mesmos ativos ao BRB por valor superior.

Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, foi preso preventivamente no aeroporto de Guarulhos em 17 de novembro de 2025, enquanto tentava deixar o país em jatinho particular.

No mesmo dia, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo por determinação judicial — o Ministério Público Federal havia solicitado sua prisão preventiva, mas a Justiça considerou proporcional apenas o afastamento por 60 dias. Horas depois, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, demitiu definitivamente Paulo Henrique Costa.YouTube

Carteiras da Tirreno: operação sem lastro

O cerne da fraude envolve a empresa Tirreno, constituída em 4 de novembro de 2024 e que estabeleceu parceria com o Banco Master apenas três dias depois.

Segundo o depoimento de Vorcaro à Polícia Federal, o Master negociou a compra de carteiras de crédito no valor de R$ 6,7 bilhões da Tirreno e quase imediatamente as revendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões — um sobrepreço de R$ 5,5 bilhões.

O empresário admitiu aos investigadores que o Banco Master não desembolsou "nenhum real" para adquirir as carteiras da Tirreno.

Questionado pela delegada da PF sobre a origem das carteiras, Vorcaro afirmou desconhecer a informação, mas alegou que confiou na empresa porque os papéis seriam provenientes da Cartos, companhia com 25 anos de experiência no mercado. A Cartos, contudo, negou ter cedido qualquer carteira de crédito à Tirreno.YouTube

Documentos do Banco Central revelam que, apesar de a Tirreno não ter promovido formalização documental e de não haver registro de movimentação financeira real, o Master cedeu as carteiras ao BRB "sem coobrigação" entre janeiro e maio de 2025.

Os valores das obrigações financeiras do Master com a Tirreno, que somavam R$ 6,7 bilhões, teriam sido liquidados por meio de contratos de cessão diretamente ao BRB, sem que o Master efetivamente pagasse a Tirreno.

BRB manteve operações após detectar irregularidades

A investigação aponta falhas graves na governança e nos métodos de prudência do BRB. Mesmo após identificar problemas nas carteiras adquiridas e ser questionado pelo Banco Central sobre as inconsistências, o BRB continuou realizando operações com o Master.

Entre abril e maio de 2025, o banco estatal efetuou nove novas cessões que totalizaram R$ 4,05 bilhões, todas relacionadas a supostas operações provenientes da Tirreno.

O Banco Central comunicou formalmente ao BRB em março de 2025 sobre os problemas identificados nos créditos repassados pelo Master.

Segundo Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, a instituição notificou o BRB em 8 de julho de 2025 sobre a internalização de novos ativos pelo banco público, incluindo Credcesta, cartão benefício, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Fundos de Investimento Imobiliário (FII), títulos do exterior, ações e cotas, classificados como "inexistentes".

O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, admitiu em depoimento que sabia da inexistência física dos valores e que poderia causar "uma quebra em sequência da Tirreno e do Banco Master" caso exercesse o direito de sacar os valores devidos.

A declaração corrobora a tese dos investigadores de que o BRB manteve as operações para evitar a falência do banco privado, mesmo ciente da falta de liquidez imediata das garantias.

Cronologia da tentativa de compra

Em 28 de março de 2025, o Conselho de Administração do BRB aprovou a compra de 58% do capital total do Banco Master, incluindo 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais, pelo valor estimado de R$ 2 bilhões.

A operação tinha como objetivo formar um novo conglomerado prudencial e foi defendida publicamente pelo governador Ibaneis Rocha.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação em junho de 2025. Contudo, o Banco Central rejeitou a aquisição em setembro de 2025, apontando a ausência de documentos que comprovassem a "viabilidade econômico-financeira" da operação.

Dois meses depois, em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

A decisão do BC foi assinada pelo presidente Gabriel Galípolo e fundamentada na "grave crise de liquidez do Conglomerado Master", no "comprometimento significativo da situação econômico-financeira" e em "graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional".

Magnitude das perdas

O Banco Central determinou que o BRB provisionasse R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas com a compra de carteiras fraudulentas. A exigência foi formalizada por meio de termo de comparecimento enviado ao banco em 7 de janeiro de 2026.

Fontes próximas ao caso indicam que o valor pode ser superior, considerando a qualidade dos ativos recebidos em substituição às carteiras fraudadas.

Até a liquidação do Master em novembro de 2025, o BRB afirmou ter recuperado cerca de R$ 10 bilhões dos R$ 12,2 bilhões em carteiras fraudulentas. A devolução, porém, foi feita com ativos de qualidade questionável.

Reportagens revelaram que os ativos repassados pelo Master ao BRB incluem fundos com carteiras inadimplentes, ações de empresas que perderam valor e imóveis da família Vorcaro com baixa liquidez.

O fundo Jeitto, o maior dos oito transferidos ao BRB como compensação, possui carteira superior a R$ 1 bilhão, sendo que R$ 952 milhões estavam inadimplentes em dezembro de 2025, gerando provisionamento de R$ 873 milhões para cobrir potenciais perdas.

Havia contrato entre o Master e o fundo estabelecendo que empréstimos com inadimplência superior a 90 dias seriam recomprados pelo fundo, prática interrompida no primeiro semestre de 2025.

Repercussões institucionais e políticas

O caso Master já gerou custos superiores a R$ 50 bilhões, considerando o pagamento de R$ 46,9 bilhões pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos clientes do Master e do Will Bank, os R$ 2,6 bilhões provisionados pelo BRB e R$ 1,8 bilhão em aplicações de fundos de pensão estaduais e municipais em letras financeiras do Master sem garantia do FGC.

A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Dias Toffoli. A Polícia Federal realizou em janeiro de 2026 uma série de oitivas com executivos e ex-diretores do BRB e do Banco Master.

A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro de 2026, bloqueou R$ 5,7 bilhões em bens de investigados.

O BRB contratou auditoria independente do escritório Machado Meyer Advogados e da Kroll Brasil para mapear a intrincada cadeia de fundos de investimento ligados a Daniel Vorcaro.

A instituição estuda contratar empresa especializada para apoiar na venda dos ativos adquiridos do Master e negocia venda de parte de sua carteira de crédito.

O governador Ibaneis Rocha afirmou que esteve poucas vezes com Daniel Vorcaro e que nunca tratou da operação com o banqueiro, atribuindo a condução das negociações diretamente ao ex-presidente Paulo Henrique Costa.

Partidos de oposição no Distrito Federal protocolaram pedido de impeachment contra Ibaneis, argumentando envolvimento direto do governador na operação que pode ter causado prejuízo de até R$ 12 bilhões aos cofres públicos.

A decisão do BRB de abrir mão do ressarcimento instantâneo de R$ 6,7 bilhões permanece como um dos pontos centrais da investigação, evidenciando possível coordenação entre as instituições para evitar a liquidação prematura do Master.

O desfecho do caso dependerá das apurações em curso pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Banco Central, que seguem analisando a complexa teia de operações financeiras envolvendo as duas instituições.

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Pedro Costa

Pedro Costa é o editor e analista de mercados, dedicado a rastrear a Economia Global e as Notícias de Negócios & Destaques diários. Com extensa experiência em análise macro, ele foca em fusões, políticas econômicas e Curiosidades Empresariais históricas.