O dólar registrou queda acentuada em relação ao euro e ao franco suíço nesta segunda-feira, refletindo um momento de turbulência nos mercados globais após a revelação de uma ameaça criminal contra Jerome Powell, presidente do Federal Reserve.
O episódio marca uma escalada sem precedentes nas tensões entre a administração Trump e a instituição responsável pela política monetária dos Estados Unidos.
Powell anunciou no domingo que o Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal contra ele, relacionada a comentários que teria feito ao Congresso sobre custos excessivos em uma reforma de 2,5 bilhões de dólares na sede do Fed em Washington.
Na visão do mercado e do próprio chair da instituição, a ação representa uma estratégia de pressão do governo para forçar cortes de juros mais agressivos.jornaldebrasilia
O índice do dólar, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas, caiu 0,37%, encerrando uma sequência de cinco dias de valorização e chegando a 98,759.
O euro avançou 0,44%, alcançando 1,1688 na maior alta diária desde 10 de dezembro, enquanto o franco suíço apresentou o melhor desempenho ao subir 0,52% frente ao dólar.
A reação foi imediata nos mercados internacionais. O ouro saltou para um recorde histórico de 4.600,33 dólares por onça, aproveitando a busca por ativos considerados seguros em períodos de instabilidade política.
Os futuros do S&P 500 recuaram aproximadamente 0,5%, sinalizando uma aversão ao risco entre investidores globais.revista.tempo
Powell enfatizou em pronunciamento que a ação constitui um pretexto para ampliar a interferência política sobre as decisões de política monetária. Segundo o presidente do Fed, a investigação deve ser entendida "no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo".
Ele argumentou que a ameaça de acusação criminal decorre da recusa do Federal Reserve em seguir as preferências presidenciais, mantendo as taxas de juros baseadas em análise técnica e dados econômicos, em vez de pressão política.
Os analistas apontam que a questão central envolve a futura independência da autoridade monetária. Thu Lan Nguyen, chefe de pesquisa de câmbio e commodities do Commerzbank, observou que a função de resposta do banco central provavelmente mudará de forma fundamental caso a Casa Branca obtenha sucesso em controlar a política monetária.
Ela acrescentou que, embora o mercado cambial seja voltado para o futuro, o episódio justifica um prêmio de risco mais elevado para o dólar.
Alguns analistas indicaram que os mercados ainda não entraram em pânico porque mantêm esperança de que o presidente Trump nomeie um sucessor confiável para Powell após o término de seu mandato.
Essa possibilidade teria mantido certa estabilidade nas expectativas, evitando uma queda mais abrupta da moeda.
No Brasil, a repercussão foi positiva para o real. O dólar abriu em baixa nesta segunda-feira, cedendo 0,16% frente à moeda brasileira, cotado a 5,357 reais. O contrato futuro de dólar para fevereiro na B3 caiu 0,29%, fechando a 5,3865 reais.
Analistas indicam que o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, onde a Selic está em 15% contra juros americanos de 3,50% a 3,75%, continua atraindo capital estrangeiro para aplicações em reais, contribuindo para a valorização da moeda brasileira.terra
A divulgação simultânea de dados econômicos fracos dos Estados Unidos, como números de contratação aquém das expectativas, amplificou a reação dos mercados.
Esses indicadores reforçaram previsões de cortes de juros do Federal Reserve ainda em 2026, com o mercado precificando pelo menos um corte adicional na taxa básica durante o ano.
A investigação contra Powell representa uma mudança significativa no relacionamento entre o governo Trump e o banco central.
Enquanto autoridades econômicas globais enfatizam a importância da independência das instituições monetárias para a credibilidade e estabilidade dos mercados, a ação do governo americano pode estabelecer um precedente preocupante sobre o papel da política nas decisões financeiras.
O episódio coloca em relevo uma questão estrutural: se as pressões políticas conseguirem influenciar as decisões de taxa de juros, a confiança nos mercados internacionais na solidez da moeda americana poderia ser abalada significativamente.
Essa dinâmica explica por que investidores migraram rapidamente para ativos de refúgio, como ouro, franco suíço e iene, buscando proteção contra possíveis volatilidades futuras.
As próximas semanas serão decisivas para compreender se a administração levará a investigação adiante ou se a utilizará como ferramenta de pressão política.
Enquanto isso, os mercados globais continuam atentos a qualquer sinal de que a independência do Federal Reserve possa estar comprometida, um fator que poderia redefinir a dinâmica das moedas internacionais e a posição do dólar como moeda de reserva global.

