Embraer: crédito de R$ 200 milhões para Eve impulsiona eVTOL no Brasil

Embraer: crédito de R$ 200 milhões para Eve impulsiona eVTOL no Brasil

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou, em dezembro de 2025, um financiamento de R$ 200 milhões para a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada à mobilidade aérea urbana.

O aporte, anunciado às vésperas da expectativa de realização do primeiro voo de teste do veículo, marca um ponto de inflexão decisivo no calendário de desenvolvimento da aeronave elétrica conhecida como eVTOL (Electric Vertical Take-Off and Landing).

O crédito aprovado provém de duas linhas distintas: R$ 160 milhões originários do Fundo Clima e R$ 40 milhões da linha Finem.

Os recursos serão direcionados especificamente à integração e funcionamento dos motores elétricos da primeira aeronave certificável, além dos ensaios necessários para obtenção do certificado de tipo junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Esta operação de financiamento integra-se a um contexto de apoio continuado do BNDES ao projeto. Desde 2022, a instituição já aprovou R$ 1,2 bilhão em crédito destinado à Eve em diferentes fases do desenvolvimento, incluindo a construção da infraestrutura fabril em Taubaté, São Paulo.

Em agosto de 2025, o banco havia anunciado R$ 405,3 milhões em investimento direto na subsidiária, operação que marcou também a retomada de investimentos em renda variável pelo BNDES após uma década sem atuar neste segmento.

A fase em que se encontra o projeto exige especial atenção técnica.

Conforme explicou Eduardo Couto, diretor financeiro da Eve, a integração do sistema de propulsão elétrica constitui "uma etapa crítica do programa" que determinará "desempenho, segurança e confiabilidade à nossa primeira aeronave certificável".

O eVTOL em desenvolvimento apresenta características técnicas bem definidas. A aeronave possui capacidade para cinco ocupantes — quatro passageiros e um piloto — com compartimento adicional para duas malas ou quatro bagagens de mão.

O sistema de propulsão inclui oito motores elétricos elevadores (lifters) nas asas, responsáveis pelo voo vertical na decolagem e pouso, complementados por um motor traseiro destinado à propulsão horizontal durante o voo de cruzeiro.

O alcance operacional de 100 quilômetros posiciona o veículo adequadamente para trajetos urbanos curtos e conexões entre cidades, reduzindo deslocamentos que atualmente consomem horas.

Segundo dados da Eve, a aeronave pode reduzir viagens intraurbanas de uma hora para aproximadamente 15 minutos, atendendo a 99% dos trajetos interurbanos típicos.

A localização da produção foi estrategicamente definida. A fábrica será instalada em Taubaté, no interior de São Paulo, dentro de uma unidade existente da Embraer.

A escolha beneficia-se de logística estruturada, com proximidade a rodovias principais e linha ferroviária, além da localização próxima à sede da Embraer em São José dos Campos e aos recursos humanos especializados da subsidiária.

O plano de produção inicial prevê a fabricação de 120 aeronaves por ano, expandindo-se modularmente conforme a demanda de mercado até a capacidade máxima de 480 unidades anuais.

O projeto envolve quase mil profissionais, entre engenheiros, técnicos e pesquisadores, que trabalham em tempo integral no desenvolvimento.

O calendário de desenvolvimento mantém-se ambicioso. Os testes em solo foram iniciados e incluem, desde janeiro de 2025, a validação do motor de propulsão traseiro responsável pelo voo de cruzeiro.

A expectativa é que os testes em voo ocorram ainda em 2025, seguidos por campanha de certificação em 2026, com entrada em operação comercial prevista para 2027.

Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, reforçou a visão institucional sobre o projeto, ressaltando que a fabricação do eVTOL representa "uma inovação disruptiva no conceito de mobilidade urbana, com um veículo que vai conectar os principais pontos das grandes cidades e regiões metropolitanas, com menor emissão de gases de efeito estufa que helicópteros e carros convencionais".

O dirigente também mencionou a aspiração de que "o primeiro voo aconteça em 2026, 120 anos após o voo do 14-Bis".

A carteira de pedidos da Eve totaliza 2,8 mil intenções de compra, distribuídas em nove países, representando a maior carteira no segmento de mobilidade aérea urbana.

O preço unitário estimado é de US$ 5 milhões, o que projeta uma receita potencial de US$ 15 bilhões caso todos os pedidos sejam convertidos em vendas efetivas.

A tecnologia incorpora sistemas avançados de automação. Embora o modelo inicial requeira piloto humano, a arquitetura foi projetada para operação autônoma futura, perspectiva que se situa no horizonte de médio prazo a partir de 2030.

O contexto competitivo internacional marca presença significativa. Nos Estados Unidos, empresas como Joby Aviation avançam em desenvolvimento de plataformas concorrentes, tendo atraído investimentos superiores a US$ 2 bilhões, incluindo parceria com a Toyota.

A vantagem estratégica da Eve reside na possibilidade de certificação inicial no Brasil, mercado com processo regulatório potencialmente mais ágil que órgãos reguladores americanos (FAA) ou europeus (EASA), permitindo operação comercial anterior aos concorrentes.

A sustentabilidade ambiental constitui argumento central na justificativa institucional. O eVTOL, movido exclusivamente por energia elétrica, não emite gases poluentes durante a operação, representando redução significativa de emissões em comparação com helicópteros e automóveis convencionais.

Esta característica alinha o projeto aos objetivos do Fundo Clima, fonte de R$ 160 milhões do financiamento aprovado.

A integração vertical da Embraer no projeto confere vantagens técnicas e regulatórias. A corporação acumula cinco décadas de experiência certificando aeronaves comerciais, mantém relacionamentos estabelecidos com reguladores globais e possui capacidade produtiva instalada.

Esta estrutura posiciona o projeto de forma distinta face aos startups aeronáuticos que competem no segmento de mobilidade aérea urbana.

O financiamento aprovado em dezembro de 2025 insere-se em cronograma crítico. A fase imediata exige validação técnica de componentes de propulsão e sistemas integrados, procedimentos que demandam investimento substancial em infraestrutura de testes e prototipagem.

O BNDES, reconhecendo o valor estratégico e a viabilidade técnica do projeto, decidiu ampliar sua participação quando a iniciativa encontra-se em etapa decisiva antes dos testes em voo.

A decisão reflete também aspecto mais amplo de política industrial brasileira.

O posicionamento como primeiro país a certificar e operar comercialmente eVTOLs poderia estabelecer precedente regulatório global e criar ecossistema industrial de mobilidade aérea urbana no Brasil, com potencial de atração de investimentos complementares em infraestrutura de vertiportos, sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo e serviços especializados.

O desafio imediato concentra-se na integração técnica dos componentes de propulsão elétrica. Os fabricantes especializados já identificados — BAE System (sistemas de armazenamento de energia), DUC Hélice Propellers (rotores) e Nidec Aerospace (sistemas de propulsão) — participam da cadeia produtiva estabelecida.

O financiamento do BNDES permite que a Eve acelere a conclusão desta etapa crítica, criando condições para que os testes de voo transcorram conforme programado.

A aprovação do crédito ocorreu simultaneamente ao lançamento de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) da Eve na B3, ação que amplia o acesso de investidores locais ao capital da empresa.

Esta convergência de eventos — aprovação de crédito público substancial e abertura ao investimento privado doméstico — evidencia confiança institucional na viabilidade do programa e nas perspectivas comerciais da mobilidade aérea urbana.

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Matheus Viana

Matheus Viana é um entusiasta da inovação e tecnologia aplicada. Sua paixão é dissecar as estratégias de Empreendedorismo e Startups, a influência da Tecnologia nos Negócios (IA, Cloud) e realizar Reviews imparciais de Software e Serviços para empresas.