PMIs Brasil e EUA 2026: EUA em expansão, Brasil sinaliza trajetórias

PMIs Brasil e EUA 2026: EUA em expansão, Brasil sinaliza trajetórias

PMIs no Brasil e nos EUA marcam primeira sessão de 2026; veja destaques

A primeira sessão de 2026 foi marcada pela divulgação de dados que revelam dinâmicas distintas entre as economias brasileira e americana, com implicações significativas para os mercados financeiros e a condução da política monetária.

Os Índices de Gerentes de Compras (PMI) de manufatura em ambos os países apontam para realidades econômicas divergentes no início do ano.

Nos Estados Unidos, o PMI industrial registrou 51,8 em dezembro, após cair de 52,2 em novembro, confirmando a estimativa preliminar divulgada pela S&P Global.

Embora tenha recuado, a leitura permanece acima da marca de 50, que separa expansão de contração, indicando continuidade na expansão do setor manufatureiro americano, ainda que com ritmo mais moderado. Os dados sugerem estabilidade relativa na economia norte-americana, mesmo diante de incertezas globais.

No Brasil, o quadro é significativamente mais desafiador. O PMI industrial caiu para 47,6 em dezembro, ante 48,8 em novembro, marcando a retração mais acentuada em três meses. A queda foi puxada simultaneamente por todos os cinco subcomponentes do índice, sinalizando deterioração generalizada na atividade industrial.

Segundo a diretora associada de economia da S&P Global Market Intelligence, Pollyanna De Lima, "a indústria do Brasil foi severamente impactada pela retração da demanda. As novas encomendas não conseguiram se recuperar, mesmo com as empresas reduzindo seus preços de venda no ritmo mais forte em pouco menos de dois anos e meio".

As encomendas, particularmente, apresentaram deterioração pronunciada. A taxa de contração da entrada de novos negócios acelerou significativamente em dezembro, com empresas identificando fraqueza da demanda como fator principal.

A demanda internacional por produtos brasileiros continuou piorando, embora a taxa de redução das exportações tenha moderado em relação a novembro, sugerindo um cenário externo ainda desafiador para a economia brasileira.

Mesmo diante desse contexto fraco, as empresas sinalizaram redução nos custos de insumos, a segunda queda mensal consecutiva ao final de 2025. A taxa de desconto atingiu o ritmo mais rápido em 27 meses, com menores tarifas reportadas para energia, alimentos, frete, metais, plásticos e resina.

Contudo, os menores custos não foram suficientes para sustentar a demanda. As empresas reduziram os preços pelos produtos pelo quarto mês consecutivo, marcando o ritmo mais rápido desde julho de 2023, numa tentativa de estimular vendas.

O mercado de trabalho no Brasil também sentiu o impacto.

O aumento marginal no emprego registrado em novembro foi revertido em dezembro, com empresas cortando o quadro de funcionários pela quarta vez em sete meses, refletindo iniciativas de controle de custos e enfrentamento da capacidade ociosa.

Na zona do euro, o cenário também preocupa. O PMI industrial caiu para 48,8 em dezembro, de 49,6 em novembro, atingindo o menor nível em nove meses. O subíndice de produção registrou queda para 48,9, marcando a primeira contração desde fevereiro.

Segundo Cyrus de la Rubia, economista-chefe do Hamburg Commercial Bank, "a demanda por produtos manufaturados da zona do euro está desacelerando novamente". A Alemanha, maior economia do bloco, apresentou o desempenho mais fraco entre as nações monitoradas, enquanto Itália e Espanha também retornaram ao território de contração.

A divergência entre a recuperação moderada americana e as contrações brasileira e europeia influenciou o tom dos mercados na abertura de 2026. O Ibovespa iniciou o ano em leve alta de 0,40%, atingindo 161.125 pontos, refletindo ventos favoráveis vindos do exterior, particularmente o otimismo com inteligência artificial que continua orientando as movimentações nos índices americanos.

Os títulos do Tesouro americano tiveram movimento altista em relação aos de risco, com o dólar à vista renovando mínimas em R$ 5,4315 (-1,04%), demonstrando apetite global por risco.

No mercado de juros, os contratos de depósito interfinanceiro (DI) iniciaram a sessão em queda, acompanhando o movimento dos Treasuries. A liquidez permaneceu reduzida, com muitos investidores ainda em folga estendida de ano-novo.

Os mercados europeus, por sua vez, operaram em alta, com o índice Stoxx 600 avançando 0,5%, refletindo o retorno dos investidores após o feriado de Ano Novo e o forte desempenho do ano anterior. Metais preciosos continuaram em destaque, com ouro registrando alta de 1,8% e prata de 4,5%.

No aspecto corporativo brasileiro, o destaque negativo recaiu sobre o setor de carnes, após a China anunciar medidas de salvaguarda que limitam as exportações de carne bovina brasileira até 2028.

A decisão pode reduzir em cerca de 500 mil toneladas os embarques do Brasil no presente ano. As ações da Minerva e Marfrig caíram 3,99% e 3,75%, respectivamente.

Pontos positivos foram registrados em empresas que anunciaram reforço de capital.

A SLC Agrícola e Cyrela apresentaram altas de 3,09% e 1,93%, respectivamente, após bonificações de ações. A Raízen, por sua vez, avançou 1,23% com a aprovação de incorporações no grupo.

Os dados de PMI revelam também dinâmicas distintas entre manufatura e serviços. O PMI de serviços no Brasil mostrou recuperação, alcançando 50,10 em novembro, um sinal de que o setor de serviços mantém maior resiliência comparativamente à indústria.

Essa divergência reflete a estrutura econômica brasileira contemporânea, onde a atividade de serviços possui maior peso relativo.

No contexto americano, as autoridades do Federal Reserve sinalizaram cautela em relação aos próximos passos na política monetária. O Fomc manteve suas projeções de apenas um corte de juros para 2026, mesmo após reduzir a taxa em 75 pontos-base desde setembro.

A expectativa é que a inflação desacelere para cerca de 2,4% ao final de 2026, enquanto o crescimento econômico se recupere para 2,3%, acima da tendência. Contudo, mercados precificam maior quantidade de cortes para o próximo ano, desalinhados das projeções oficiais do Fed.

Apesar do cenário industrial fraco no Brasil, os produtores de bens sinalizaram otimismo em relação a 2026. O cenário de recuperação foi atribuído à expectativa de melhoria nas condições de demanda, perspectiva de redução da taxa de juros, investimentos em tecnologia e maior foco em produtividade.

Esse otimismo, contudo, contrasta com os dados concretos de contração, revelando certa desconexão entre as expectativas empresariais e a realidade econômica presente.

A primeira sessão de 2026 assim encapsulou as tensões que marcaram o encerramento de 2025: enquanto mercados globais continuam beneficiados pela euforia tecnológica e pela perspectiva de afrouxamento das condições monetárias americanas, a base real das economias brasileira e europeia apresenta fragilidades estruturais que demandam atenção.

Os PMIs servem como termômetro dessas dinâmicas, alertando investidores sobre os riscos subjacentes à superfície de otimismo que caracterizou o retorno do período festivo.

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Pedro Costa

Pedro Costa é o editor e analista de mercados, dedicado a rastrear a Economia Global e as Notícias de Negócios & Destaques diários. Com extensa experiência em análise macro, ele foca em fusões, políticas econômicas e Curiosidades Empresariais históricas.