GráficoGráfico do Interpretador de CódigoA América Latina consolidou-se como epicentro global da adoção de stablecoins, onde essas moedas digitais lastreadas em ativos estáveis transitam de nicho especulativo para infraestrutura financeira crítica.
O relatório "Crypto Theses 2026" da Messari, publicado em dezembro de 2025, identifica a região como protagonista de uma transformação silenciosa nos sistemas de pagamento e liquidação corporativa, ao mesmo tempo que alerta para riscos estruturais que podem frear essa expansão.
A capitalização global de stablecoins ultrapassou US$ 250 bilhões em meados de 2025, movimentando volumes que rivalizam com redes tradicionais como Visa e ACH. Na América Latina, a participação desses ativos nas transações cripto atinge patamares sem precedentes: 61,8% na Argentina e 59,8% no Brasil, contra 44,7% da média mundial.
Esse desequilíbrio regional reflete não apenas oportunidades de mercado, mas também vulnerabilidades macroeconômicas que impulsionam a busca por dólares digitais como proteção contra inflação e volatilidade cambial.
!Participação das stablecoins nas transações de criptomoedas na América Latina supera significativamente a média global, demonstrando a forte adoção regional perplexity](https://ppl-ai-code-interpreter-files.s3.amazonaws.com/web/direct-files/fec3a4311475adc602c9f81ac1cf04d4/e408d665-4a20-42da-97a5-05d22de89267/ff8e300c.png)## Liquidação B2B e contas em dólar digital: os motores de crescimento
A Messari projeta que a liquidação business-to-business e as contas em dólar digital serão os principais motores de crescimento dos criptoativos na América Latina durante 2026.
Essa tese encontra respaldo em dados concretos: o volume de stablecoins em pagamentos institucionais mais que dobrou entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025, segundo o relatório "Stablecoin Landscape in Latin America" da Bitso Business.
Empresas dos setores de games e prestadores de serviços de pagamento lideraram essa expansão, com crescimentos de 5,3 vezes e 68%, respectivamente. Atualmente, câmbio, tesouraria e pagamentos B2B já respondem por 45% do volume total movimentado pela unidade corporativa da Bitso na região.
No Brasil, onde 84% do volume de stablecoins locais é movimentado por instituições financeiras, fintechs e empresas de pagamento — contra apenas 4% do varejo —, fica evidente a maturação institucional do mercado.
!Distribuição dos casos de uso de stablecoins na América Latina, com câmbio e tesouraria representando 45% do volume institucional perplexity](https://ppl-ai-code-interpreter-files.s3.amazonaws.com/web/direct-files/fec3a4311475adc602c9f81ac1cf04d4/9b65afc0-dff1-40ac-b87c-75f44ca1dea6/2c5673b4.png)A eficiência operacional explica essa preferência corporativa.
Enquanto transferências bancárias tradicionais via Swift podem levar até três dias úteis e custar entre 3% e 6% em taxas, operações com stablecoins liquidam em minutos com custos inferiores a 1%. Para empresas brasileiras que exportam para a Argentina — onde inflação anual supera 200% e múltiplas cotações do dólar dificultam o acesso ao câmbio tradicional —, receber em USDT garante previsibilidade de caixa e elimina atrasos na conversão de moedas.
A projeção é que o uso de stablecoins em operações de comércio exterior entre Brasil e Argentina cresça até 500% em 2025, impulsionado por restrições cambiais no país vizinho e pela busca de eficiência operacional.
Essa dinâmica replica-se em toda a região: no México, onde 63% da população adulta não possui conta bancária, stablecoins desempenham papel crescente na inclusão financeira, levando o país ao 13º lugar no ranking global de adoção cripto.
USDT e a dominância da Tether nos mercados emergentes
O relatório da Messari destaca a Tether (USDT) como força dominante em mercados emergentes, especialmente na América Latina, devido à liquidez profunda em redes peer-to-peer.
Com mais de US$ 155 bilhões em circulação e 63% de participação no mercado global de stablecoins, o USDT mantém vantagem estrutural em economias com restrições cambiais.
A blockchain Tron tornou-se o principal trilho para essas transações, processando mais de US$ 21,5 bilhões em transferências diárias de USDT — mais da metade da oferta global da stablecoin circula nessa rede.
A Tron lidera o ranking de stablecoins em 35 dos 50 países analisados pela Presto Research, incluindo Brasil (5º), Nigéria (6º) e Indonésia (7º). Na América Latina, África e Sudeste Asiático, a rede tornou-se "o trilho de dólar digital de fato", com mais de 75% das transferências globais de USDT ocorrendo na plataforma.
As taxas de transação extremamente baixas da Tron (cerca de US$ 0,00055 por operação na Stellar) e a rapidez na liquidação (5 segundos a 1 minuto) explicam sua preferência em remessas e pagamentos cotidianos.
Na Argentina, o USDT sozinho respondeu por 78% das transações de criptomoedas no primeiro semestre de 2025, reflexo direto da busca por proteção contra hiperinflação.
Entretanto, a Messari alerta que a concentração de mercado da Tether enfrenta crescente pressão competitiva. O USDC, da Circle, vem ganhando terreno em contextos regulados e institucionais, impulsionado por parcerias com Shopify, Stripe e Visa, além da Circle Payments Network (CPN), que oferece dinheiro programável para empresas.
Em mercados desenvolvidos e em integrações bancárias diretas, o USDC torna-se a escolha preferencial devido à transparência regulatória e às reservas sediadas nos Estados Unidos.
Stablecoins com rendimento: promessas e armadilhas estruturais
Uma das tendências em alta identificadas pela Messari para 2026 é a ascensão das stablecoins geradoras de rendimento (yield-bearing stablecoins), que redistribuem aos detentores os juros gerados pelas reservas lastreadas em títulos do Tesouro americano ou outras estratégias de renda.
Em ambiente de taxas de juros elevadas — acima de 5% nos Estados Unidos em 2025 —, a ineficiência de stablecoins tradicionais como USDT tornou-se insustentável: detentores efetivamente "doavam" bilhões em rendimentos anuais à Tether, que reinvestia as reservas e capturava os lucros.
Protocolos como Ethena, com sua stablecoin sintética USDe, representam desafio direto a esse modelo. A USDe combina tokens de staking líquido (LSTs) com estratégias de hedge delta-neutro para distribuir rendimento aos usuários.
Com listagem em grandes exchanges centralizadas em 2025, o ativo ganhou funcionalidade de liquidação real, não apenas composabilidade em DeFi. A capitalização de mercado de stablecoins com rendimento cresceu 50% ano a ano, atingindo mais de US$ 20 bilhões em circulação.
!Projeção de crescimento exponencial da capitalização de mercado de stablecoins, com expectativa de atingir US$ 2 trilhões até 2028 perplexity](https://ppl-ai-code-interpreter-files.s3.amazonaws.com/web/direct-files/fec3a4311475adc602c9f81ac1cf04d4/4fd8f4a5-006a-4e71-9f4b-257d4194efd1/0f4c220b.png)A Messari projeta que mais de 20% de todas as stablecoins ativas oferecerão rendimento embutido ou recursos de programabilidade em 2026, acelerando a liquidação cross-chain.
Cloudflare e Google estão desenvolvendo stablecoins e protocolos de pagamento especificamente para transações assistidas por inteligência artificial, preparando-se para o mundo futuro de gastos automatizados por IA.
No entanto, o relatório não ignora os riscos intrínsecos. Stablecoins sintéticas como USDe carregam risco estrutural de desancoragem em condições extremas de mercado. O rendimento do USDe origina-se de duas fontes: recompensas de staking de LSTs e taxas de financiamento pagas por traders de futuros perpétuos.
Em mercados altistas, traders comprados subsidiam o sistema, permitindo que detentores de USDe "cobrem aluguel". Em bear markets prolongados, esse fluxo se inverte, e o sistema precisa pagar para manter os hedges.
O evento de outubro de 2025 ilustra essa fragilidade. Após o crash do mercado cripto em 10 de outubro, a USDe sofreu desancoragem temporária, sendo negociada a US$ 0,65 na Binance.
Embora a Ethena Labs tenha atribuído o episódio a erro interno de oráculo da exchange e afirmado que mint e resgates funcionaram normalmente, a capitalização da USDe despencou de US$ 14,7 bilhões para US$ 6,4 bilhões em dois meses — perda de US$ 8,3 bilhões que reflete a fuga de capital de modelos sintéticos.
A Messari reconhece que o otimismo em relação a stablecoins com rendimento assume implicitamente demanda contínua por alavancagem e ambiente favorável ao Bitcoin.
Um indicador útil para monitorar é o comportamento de prêmios de LSTs: distorções sustentadas frequentemente sinalizam pressões crescentes sob a superfície.
Riscos regulatórios e o fantasma do shadow banking
O relatório da Messari para 2026 também destaca tendências em baixa — riscos que podem frear a expansão de stablecoins.
O principal deles envolve paralelismos crescentes com o shadow banking, sistema financeiro paralelo que operou com baixa transparência e alta alavancagem antes da crise de 2008.
Stablecoins geradoras de rendimento recriam, em ambiente digital, estruturas similares às que causaram a crise subprime: operações altamente alavancadas, falta de transparência em ativos complexos e dependência de retornos incertos.
Essas entidades não são monitoradas com o mesmo rigor que bancos tradicionais, permitindo que assumam riscos que seriam inaceitáveis para instituições reguladas.
Pesquisa publicada no Journal of International Financial Markets, Institutions and Money em dezembro de 2025 questiona a premissa de que stablecoins funcionam como âncoras financeiras estáveis.
O estudo conduzido por pesquisadores da FGV EAESP demonstra que, apesar do nome sugerir estabilidade, stablecoins exibem fortes ligações com oscilações de criptomoedas como Bitcoin, especialmente durante crises de mercado. Os pesquisadores identificaram que stablecoins reagem à liquidez e volatilidade do mercado — não são independentes das demais moedas digitais nem do sistema financeiro tradicional.
Essa fragilidade compromete o papel das stablecoins como porto seguro e pode gerar efeitos em cascata, ampliando riscos para todo o sistema. Em vez de reduzir instabilidade, stablecoins parecem refletir a dinâmica especulativa do mercado cripto.
A pesquisa alerta para necessidade de regulação mais rigorosa e monitoramento contínuo por autoridades financeiras, pois à medida que stablecoins se integram ao sistema tradicional, sua instabilidade pode afetar bancos e investidores, tornando-se risco sistêmico.
No contexto latino-americano, essas preocupações tornam-se mais agudas. Reguladores alertam que stablecoins, ao administrarem reservas que podem chegar a dezenas ou centenas de bilhões de dólares, poderiam intensificar corridas bancárias ou desestabilizar sistemas financeiros domésticos em economias emergentes se mal projetadas ou reguladas inadequadamente.
Além disso, podem abrir brechas para lavagem de dinheiro ou evasão de sanções.
Cenário regulatório na América Latina: avanços e lacunas
A clareza regulatória emerge como fator crítico para o crescimento sustentável de stablecoins. Nos Estados Unidos, a aprovação do GENIUS Act em julho de 2025 estabeleceu arcabouço mais previsível para emissão e circulação de stablecoins, exigindo lastro integral de 1:1 em ativos altamente líquidos como Treasury bills.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que a legislação "fortalecerá o status do dólar como moeda de reserva global" e "levará a aumento na demanda por títulos do Tesouro dos EUA".
Na União Europeia, o regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) criou estrutura normativa rigorosa para emissão, negociação e custódia de criptoativos, incluindo stablecoins.
A abrangência do MiCA busca garantir alto nível de proteção aos investidores, promovendo regras claras para custódia de ativos e estabelecendo normas de segregação e proteção contra insolvência de plataformas de negociação.
No Brasil, a regulamentação de stablecoins vem sendo discutida no âmbito da Lei 14.478/2022, que criou o marco legal dos criptoativos. O Banco Central abriu consulta pública e publicou as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que disciplinam processos autorizativos, estabelecem requisitos operacionais e integram operações com criptoativos ao mercado de câmbio.
O Projeto de Lei 4.308/2024, de autoria do deputado Aureo Ribeiro, prevê que stablecoins emitidas "deverão ser integralmente lastreadas nos ativos e nas moedas fiduciárias de referência especificados pela emissora".
Entretanto, especialistas apontam que a abordagem brasileira, ao transpor quase integralmente o arcabouço bancário tradicional para stablecoins, cria paradoxos operacionais de difícil resolução prática.
A vedação à compra e venda de ativos virtuais com pagamento em moeda estrangeira, estabelecida na Resolução 521, é particularmente problemática: considerando que o mercado global opera predominantemente em dólares e que stablecoins como USDT e USDC são essencialmente representações tokenizadas de moeda estrangeira, a proibição cria contradição que limita a operabilidade.
Bancos tradicionais como BTG Pactual reconhecem o potencial das stablecoins, mas apontam a falta de regulamentação como fator limitante que os impede de assumir a dianteira desse movimento.
"Não podemos ser um first mover porque somos extremamente regulados. A regulação às vezes nos coloca em posição de desvantagem competitiva", afirmou o CEO do BTG, Roberto Sallouti.
Perspectivas institucionais e casos de uso emergentes
A B3, bolsa de valores brasileira, anunciou em dezembro de 2025 o lançamento de stablecoin própria para o primeiro semestre de 2026, como parte de estratégia para atuar como infraestrutura para ativos tokenizados.
Segundo Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, a stablecoin "será ferramenta viabilizadora da negociação em tokens", promovendo convivência entre ecossistemas tradicionais de negociação e o ambiente tokenizado. A companhia também deve lançar tokenizadora em 2026, conectada à infraestrutura atual de negociação e pós-negociação.
A Visa informou que poderá ter novos produtos de stablecoin no Brasil em 2026, com moedas lastreadas entre suas prioridades.
Empresas como Nuvei, BitGo e Rain desenvolveram soluções de pagamentos com blockchain voltadas para empresas latino-americanas, permitindo uso de stablecoins para liquidações globais e reduzindo dependência de métodos tradicionais.
No Brasil, México e Colômbia, stablecoins locais atreladas a moedas nacionais movimentaram US$ 4,8 bilhões em 2025, com projeção de ultrapassar US$ 6 bilhões até dezembro.
O Brasil lidera com ampla vantagem, respondendo por 69% do volume transacionado, com expectativa de superar sozinho US$ 4 bilhões em operações on-chain. O real consolida-se como terceiro maior mercado de stablecoins do mundo em termos de oferta e volume, atrás apenas do dólar e do euro.
A Colômbia registra crescimento acelerado: o volume de stablecoins atreladas ao peso colombiano saltou de US$ 700 mil em outubro de 2024 para US$ 200 milhões no mesmo mês de 2025, impulsionado por remessas, operações de câmbio e pagamentos corporativos internacionais.
Bitcoin e a compressão do prêmio monetário das Layer-1
O relatório da Messari para 2026 apresenta perspectiva contundente sobre o futuro das blockchains de Layer-1 alternativas ao Bitcoin.
A empresa argumenta que o mercado cripto entra em fase definida menos por ciclos especulativos e mais pela credibilidade monetária, com o Bitcoin consolidando papel como forma dominante de criptomoeda enquanto a maioria dos ativos Layer-1 continua perdendo participação de mercado.
A análise revela que valuations de Layer-1 permanecem cada vez mais desconectados de receitas, uso e atividade econômica on-chain. As receitas de Layer-1 caíram significativamente ano a ano, com a valuation crescendo com base na suposição de "prêmio monetário" futuro.
A Messari calcula que, removendo outliers como Tron e Hyperliquid, o índice preço/vendas (P/S) ajustado de Layer-1 mostra tendência continuamente ascendente mesmo com declínio de receitas.
As receitas históricas do conjunto de Layer-1 analisado pela Messari mostram queda em quase todos os anos: US$ 123,3 bilhões (2021), US$ 48,9 bilhões (2022, -60%), US$ 27,2 bilhões (2023, -44%), US$ 35,5 bilhões (2024,%), e US$ 17 bilhões (2025 anualizado, -52%).
"Com muito poucas exceções potenciais, esperamos que a maioria das Layer-1 tenha desempenho inferior ao BTC", conclui o relatório.
O Ethereum (ETH) ocupa posição complexa. Embora tenha recuperado impulso por meio de fluxos de ETFs e crescimento de tesourarias focadas em ETH, a Messari enfatiza que o papel monetário do Ethereum permanece estruturalmente atrelado ao Bitcoin.
"O mercado continua precificando o prêmio monetário do ETH como dependente do BTC", afirma o relatório, destacando que o ETH negocia com alta correlação e beta em relação ao BTC, limitando sua capacidade de funcionar como ativo monetário independente.
Essa dinâmica tem implicações diretas para a América Latina.
À medida que o capital se concentra em ativos percebidos como formas de dinheiro críveis, a região — que historicamente direcionou capital para altcoins especulativas — pode testemunhar realocação para Bitcoin e stablecoins como instrumentos de preservação de valor e liquidação.
O Mercado Bitcoin projeta que o Bitcoin alcance ao menos 14% da capitalização do ouro até 2026, mais que o dobro da fatia atual de 6%.
A combinação de eficiência como reserva de valor (nativa digital, acessível, ágil) contra as limitações físicas do ouro (transporte, custódia, estrutura física) posiciona o BTC como alternativa moderna em mercados que buscam proteção contra depreciação monetária.
Tokenização e o futuro dos ativos digitais
A Messari identifica a tokenização de ativos reais (RWAs) como tendência estrutural que conectará finanças tradicionais e cripto em 2026.
Ativos tokenizados — títulos do Tesouro americano, fundos do mercado monetário, imóveis — expandiram de US$ 4 bilhões para US$ 18 bilhões em valor, demonstrando como stablecoins servem de ponte entre finanças descentralizadas e tradicionais.
O Mercado Bitcoin projeta que o volume global de ativos tokenizados aumente 200% em 2026, ultrapassando US$ 54 bilhões. Pilotos de ativos tokenizados na América Latina geraram US$ 387,1 milhões em 2024, fortalecendo adoção institucional.
Brasil, com a Lei 14.478/2022 e o piloto Drex envolvendo Visa, Mastercard, Santander e Microsoft, lidera regulação abrangente na região.
Plataformas agregadoras como Pendle Finance otimizam retornos através de múltiplos protocolos, criando produtos de renda fixa que atraem investidores avessos a risco.
Títulos do Tesouro tokenizados e bonds corporativos fornecem fluxos de rendimento diversificados às stablecoins, aumentando apelo em ambiente de baixas taxas de juros.
Prognóstico para 2026: crescimento com cautela estrutural
As projeções para o mercado de stablecoins em 2026 variam conforme a fonte, mas convergem em crescimento robusto. A Hashdex projeta que a capitalização atinja US$ 500 bilhões em 2026, US$ 2 trilhões até 2028 e US$ 4 trilhões até 2033.
A 21Shares e o Tesouro dos EUA preveem US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões até 2028. Tracy Jin, COO da MEXC, especula que stablecoins possam ultrapassar US$ 2 trilhões já em 2026.
Para a América Latina, o cenário combina oportunidades excepcionais com riscos estruturais. A região movimentou US$ 1,5 trilhão em transações cripto entre julho de 2022 e junho de 2025, com crescimento de 63% ano a ano.
Brasil lidera com folga, transacionando mais de US$ 300 bilhões em criptomoedas no último período analisado — mais que o triplo da Argentina (US$ 93,9 bilhões) e mais de quatro vezes o México (US$ 71,2 bilhões).
A adoção institucional de stablecoins para liquidação B2B, câmbio e tesouraria já representa parcela dominante do mercado, sinalizando maturação para além de uso especulativo.
Entretanto, os alertas da Messari sobre riscos de desancoragem de stablecoins sintéticas, paralelismos com shadow banking e dependência de condições macroeconômicas favoráveis exigem cautela.
A regulamentação emerge como variável crítica. Marcos como GENIUS Act e MiCA fornecem clareza que atrai capital institucional, mas a implementação prática — especialmente em economias emergentes com controles cambiais e infraestrutura bancária limitada — permanece desafio.
O Brasil, apesar de avanços regulatórios, enfrenta contradições normativas que podem limitar operabilidade plena de stablecoins.
A conclusão do relatório da Messari é pragmática: stablecoins são melhor interpretadas como "bússola direcional" em vez de "manual de negociação". Identificam mudanças estruturais precocemente, mas não contabilizam timing de liquidez, decaimento narrativo ou reflexividade impulsionada pelo varejo.
Para 2026, a América Latina permanecerá laboratório fundamental dessa transformação — região onde necessidade econômica, inovação regulatória e adoção institucional convergem para redefinir como capital se move através de fronteiras digitais.

