Donald Trump assinou em 7 de janeiro de 2026 uma ordem executiva que estabelece restrições inéditas sobre a remuneração de executivos e práticas financeiras de empresas contratadas pela indústria de defesa dos Estados Unidos.
A medida, intitulada "Priorizando o Combatente nos Contratos de Defesa", proíbe temporariamente que empresas do setor paguem dividendos ou realizem recompras de ações enquanto apresentarem desempenho insatisfatório na entrega de equipamentos militares.noticias.r7
A ordem executiva surge em resposta aos atrasos crônicos e estouros de orçamento que caracterizam os contratos militares, além do que o presidente considera uma priorização indevida dos lucros dos acionistas em detrimento da prontidão das Forças Armadas.
O próprio Trump defendeu publicamente que nenhum executivo do setor deveria receber mais de US$ 5 milhões anuais até que os problemas de produção sejam resolvidos, classificando os pacotes de remuneração atuais como "exorbitantes e injustificáveis".exame
Os números que motivam a ofensiva
A disparidade entre a remuneração dos executivos e a velocidade de produção é alarmante.
Em 2024, os CEOs das cinco maiores contratadas do Pentágono — Lockheed Martin, RTX (antiga Raytheon), Northrop Grumman, Boeing e General Dynamics — receberam cada um mais de US$ 18 milhões em remuneração total, incluindo salário base, bônus, opções de ações e benefícios diversos. Esses valores representam mais de três vezes o teto de US$ 5 milhões sugerido por Trump.
Entre 2020 e 2024, apenas essas cinco empresas receberam US$ 771 bilhões em contratos do Pentágono, com a Lockheed Martin liderando com US$ 313 bilhões. Paralelamente, muitas dessas companhias investiram valores substanciais em recompra de ações e pagamento de dividendos.
A Northrop Grumman, por exemplo, investiu US$ 1,17 bilhão até setembro, mas no mesmo período pagou US$ 946 milhões em dividendos aos acionistas. A Lockheed Martin destinou US$ 2,25 bilhões para recompra de ações e US$ 2,33 bilhões em dividendos.eco.sapo
O problema da entrega
A crítica presidencial não se limita aos salários. Trump afirma que as empresas de defesa não estão produzindo equipamentos com a velocidade necessária e que a manutenção de equipamentos já entregues é lenta e inadequada.
A ordem executiva estabelece que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, deve identificar em 30 dias as empresas que estejam apresentando desempenho insatisfatório, não investindo capital próprio em capacidade produtiva, priorizando insuficientemente contratos governamentais ou com velocidade de produção inadequada.terra
As empresas identificadas terão 15 dias para apresentar planos de remediação.
Caso o Pentágono considere os planos insuficientes, o governo poderá tomar medidas coercitivas, incluindo o uso da Lei de Produção de Defesa (Defense Production Act) e mecanismos de execução disponíveis nos regulamentos federais de aquisições.forte
Mudanças estruturais nos contratos futuros
A ordem executiva vai além das restrições imediatas. Ela determina que, em até 60 dias, todos os futuros contratos de defesa incluam cláusulas que impeçam dividendos e recompras de ações enquanto houver desempenho inferior ao previsto.
Mais significativamente, a remuneração de executivos deverá estar vinculada a indicadores operacionais — como entrega no prazo, aumento da produção e melhorias operacionais — em vez de métricas financeiras de curto prazo como lucro por ação ou fluxo de caixa livre impulsionado por recompras de ações.defesanet
A medida permite ainda que o secretário de Defesa limite os salários-base dos executivos a níveis atuais, com aumentos permitidos apenas para compensar a inflação, por um período suficiente para escrutinar a parcela de incentivos da remuneração executiva e garantir que esteja direta e rigidamente atrelada aos objetivos de produção.
Contexto político e orçamentário
A ordem executiva surge no contexto de uma agenda mais ampla de fortalecimento da indústria de defesa. Trump propôs elevar o orçamento militar para US$ 1,5 trilhão em 2027, um aumento substancial em relação aos US$ 901 bilhões aprovados para 2026.
A sinalização de mais recursos ajudou a impulsionar as ações de empresas do setor após a volatilidade inicial causada pelas críticas presidenciais.bloomberglinea
Trump também sinalizou que a receita de tarifas ajudaria a financiar esse aumento nos gastos militares, além de possibilitar redução da dívida.
A combinação de orçamento maior com controles mais rígidos sobre práticas corporativas representa uma tentativa de maximizar a eficiência dos gastos militares enquanto pressiona as empresas a priorizarem a produção sobre a remuneração de acionistas.
Reações do mercado e das empresas
O anúncio inicial provocou quedas expressivas nas ações das principais empresas de defesa. A Lockheed Martin caiu 4,8%, a Northrop Grumman recuou 5,5% e a General Dynamics perdeu 3,6%.
Contudo, após Trump anunciar o orçamento ampliado de US$ 1,5 trilhão, as ações se recuperaram fortemente. A Lockheed Martin subiu 8%, a Northrop Grumman avançou 9,5% e a RTX ganhou 4,4%.connection.avenue
Trump destacou especificamente a Raytheon (unidade da RTX) como a empresa "menos receptiva" às necessidades do Departamento de Guerra, chegando a ameaçar que a companhia não faria mais negócios com o Pentágono caso não avançasse com investimentos em fábricas e equipamentos.
A Raytheon fabrica sistemas críticos como os mísseis antimísseis Patriot, amplamente utilizados na Ucrânia, e os mísseis Tomahawk.investing
A Lockheed Martin emitiu nota cautelosa afirmando que "compartilha o foco do presidente Trump e do Departamento de Guerra em velocidade, responsabilidade e resultados, e continuará investindo e inovando em grande escala".
Um porta-voz da RTX não comentou imediatamente as publicações de Trump.connection.avenue
Precedentes históricos e desafios legais
A intervenção de Trump no complexo militar-industrial ecoa alertas históricos. Em 1961, o presidente Dwight Eisenhower, em seu discurso de despedida, advertiu sobre os riscos do que chamou de "complexo militar-industrial", referindo-se à estreita relação entre a indústria de defesa privada e o governo americano.
Eisenhower, que havia comandado as tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, expressou preocupação de que a influência crescente desse complexo pudesse comprometer políticas públicas e criar uma elite científico-tecnológica com poder desproporcional.youtubesociedademilitar
Especialistas apontam que a ordem executiva representa um esforço sem precedentes para vincular diretamente o desempenho produtivo das empresas contratadas à sua capacidade de recompensar acionistas e remunerar executivos, uma abordagem que deverá enfrentar debates legais tanto nos corredores governamentais quanto no mercado financeiro.
A constitucionalidade e a viabilidade prática da medida permanecem questões abertas, especialmente considerando os limites tradicionais da intervenção presidencial em práticas corporativas de empresas privadas.cartacapital
Implicações mais amplas
A medida de Trump coloca em evidência um debate mais amplo sobre a remuneração de executivos nos Estados Unidos. O CEO médio do S&P 500 recebeu 196 vezes mais que o funcionário médio em 2023, proporção que vem crescendo consistentemente.
A remuneração dos CEOs aumentou 1.322% desde 1978, enquanto o salário médio dos trabalhadores cresceu apenas 18,1% no mesmo período.bbc
Diferentemente da maioria dos países, os Estados Unidos não possuem mecanismos legais para controlar a remuneração de executivos, embora existam normas sociais e pressão de acionistas que funcionam como limitadores informais em outros mercados.
A proposta de Trump de estabelecer um teto salarial, mesmo que informal, para executivos do setor de defesa representa uma mudança significativa nessa abordagem historicamente laissez-faire.bbc
A ordem executiva também reflete uma estratégia populista em momento político sensível. Com eleições legislativas previstas para novembro de 2026, Trump enfrenta o risco de perder a maioria republicana na Câmara dos Representantes.
A crítica aos "salários exorbitantes" e à priorização de acionistas sobre a defesa nacional ressoa com setores amplos do eleitorado, especialmente em um contexto de percepção de estagnação salarial para trabalhadores comuns.
O futuro da implementação
A efetividade prática da ordem executiva dependerá da capacidade do Pentágono de identificar empresas com desempenho insatisfatório, da qualidade dos planos de remediação apresentados pelas companhias e, em última análise, da disposição do governo de aplicar sanções contra contratadas estratégicas que produzem sistemas de armas críticos para a segurança nacional.
A ameaça de Trump de não fazer mais negócios com a Raytheon, uma das maiores produtoras de sistemas de defesa do país, ilustra o dilema entre pressão por mudanças e dependência de fornecedores especializados.eco.sapo
A medida estabelece um novo paradigma para contratos de defesa nos Estados Unidos, em que a velocidade de produção e o investimento em capacidade industrial tornam-se critérios tão importantes quanto o preço e a qualidade técnica.
Se implementada conforme planejado, a ordem pode redefinir fundamentalmente como as maiores empresas de defesa do mundo equilibram os interesses de acionistas com as demandas de seu principal cliente — o governo americano.

