A escassez de mão de obra no comércio brasileiro atinge seu pior nível em cinco anos, impulsionando transformações nas práticas de trabalho das grandes redes varejistas.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) identificou falta de profissionais em 57 das 100 principais ocupações do setor, fenômeno que força empresas a reestruturar jornadas, aumentar salários e oferecer benefícios antes considerados secundários.
Entre julho de 2024 e julho de 2025, o salário médio de admissão no comércio cresceu acima de 5%, com algumas profissões registrando elevações próximas a 10%, segundo dados da CNC.
Operadores de telemarketing enfrentam situação particularmente crítica, com salários iniciais subindo quase o dobro da inflação do período. Analistas de pesquisa de mercado e analistas de negócios também experimentaram pressão salarial significativa, reflexo direto da dificuldade em preencher vagas.
A transformação mais visível ocorre nas jornadas de trabalho. Empresas tradicionais adotam progressivamente a escala 5x2 no lugar do modelo 6x1, que dominava o setor há décadas. A Comercial Zaffari e sua bandeira Stok Center implementaram o novo formato, assim como a Quero-Quero em suas operações gaúchas.
O Grupo DPSP, responsável pelas Drogarias Pacheco e São Paulo, modificou a rotina de aproximadamente 24 mil funcionários em 2024, enquanto a H&M adotou a mesma prática ao se instalar no país.
Na escala 5x2, os funcionários continuam trabalhando 44 horas semanais conforme estabelecido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas recebem dois dias consecutivos de descanso, frequentemente incluindo fins de semana ou podendo optar por folgas durante a semana.
Esta mudança atrai especialmente gerações mais jovens, que evitam trabalhos prolongados aos sábados à tarde e domingos.
A concessão de domingos adicionais de folga também ganhou espaço nas estratégias de retenção. A Cobasi, líder em varejo de animais de estimação, passou a oferecer um segundo domingo de folga mensal, ampliando além do mínimo legal exigido para o comércio.
No Espírito Santo, a Fecomercio fechará estabelecimentos alimentares e lojas de construção todos os domingos entre março e outubro de 2026, complementando essa mudança com aumento salarial de 7%, acima da inflação.
A decisão de reestruturar condições laborais responde a dinâmica de mercado complexa. Com a taxa de desemprego em 5,8% no segundo trimestre de 2025, a menor registrada na série histórica do IBGE, a oferta de trabalho tornou-se escassa.
Indústrias em regiões específicas, como o setor avícola do sul do país, competem diretamente com o varejo pela mesma mão de obra, oferecendo frequentemente remunerações superiores e jornadas mais atrativas.
O comércio eletrônico amplificou a pressão sobre a escassez de profissionais. A receita nominal do e-commerce cresceu 311% nos últimos cinco anos, contra expansão de 55% no comércio geral.
Profissões ligadas à logística enfrentam as maiores dificuldades: auxiliares de logística registram crescimento salarial de 22,7%, estoquistas 14,6% e expedidores de mercadorias 13,1%.
Estimativas da CNC indicam a necessidade de criação de 110 mil postos adicionais apenas para equilibrar a relação entre oferta e demanda de trabalhadores no setor.
Especialistas apontam que a solução estrutural passa pela qualificação profissional e pelo aprofundamento da transição do mercado de trabalho analógico para o digital, processo que demandará tempo considerável.
As empresas reconhecem limitações em suas estratégias salariais. Representantes do varejo citam a carga tributária como obstáculo para aumentos remuneratórios mais robustos: para cada real destinado ao colaborador, a empresa despende aproximadamente um real adicional em custos.
Essa realidade restringe o raio de manobra para elevações de salários, tornando as mudanças nas jornadas e benefícios complementares estratégias mais viáveis de curto prazo.
Algumas implementações da escala 5x2 enfrentam críticas quanto à sua efetividade. Denúncias apontam que certas empresas mantêm ou aumentam a carga de trabalho durante os dias úteis, chegando a jornadas de dez horas diárias, esvaziando os ganhos potenciais para qualidade de vida.
Especialistas afirmam que a redução genuína de horas semanais seria o avanço mais significativo, como ocorre em países como França (35 horas semanais) e Estados Unidos (40 horas).
A mudança na legislação sobre trabalho aos domingos também condiciona as estratégias varejistas. A portaria 3.665/2023, em vigor desde 1º de julho de 2025, exige convenção coletiva entre lojistas e sindicatos para autorizar expediente nessas datas, alterando a dinâmica de negociações trabalhistas.
Especialistas veem nessa regulação oportunidade para viabilizar, gradualmente, a jornada 5x2 como modelo predominante no setor.

